As empresas de tecnologia financeira, ou fintechs, têm potencial para promover impactos sociais positivos — mas precisam adotar estratégias específicas para alcançar esse objetivo. Os executivos que atuam no setor têm como um de seus propósitos a expansão da inclusão financeira para os não-bancarizados, fortalecendo a saúde financeira e promovendo a segurança digital.
Empresas como Nubank, Inter e PicPay estão adotando esse propósito com ênfase, posicionando seus produtos e serviços como ferramentas para inclusão financeira e crescimento econômico equitativo. Mas o setor vive um momento de inflexão: depois de um ciclo de crescimento explosivo, o que define agora quem avança e quem estagna é a capacidade de combinar estratégia, agilidade e rentabilização.
Capítulo 01 O potencial das fintechs: simplicidade que vira inclusão
As fintechs promovem novas soluções e prezam pela experiência simplificada, de modo que o cliente tenha autonomia e possa encontrar resoluções efetivas de forma rápida e acessível. Além disso, oferecem serviços que, muitas vezes, não são oferecidos pelo mercado tradicional. Elas ocupam um espaço onde os grandes bancos, hoje, ainda estão timidamente inseridos.
de pessoas não possuem uma conta bancária no mundo, segundo dados do Global Findex 2022. No Brasil, o número de desbancarizados está em declínio: 22,7 milhões de pessoas ingressaram no sistema financeiro desde o início da pandemia, e a taxa de não-bancarizados corresponde hoje a 16% da população adulta.
Nesse cenário, as fintechs atendem a uma necessidade implícita: atendimento com qualidade, sem as implicações da burocracia física. O foco é a facilidade proporcionada ao usuário — e esse foi um dos grandes pilares de crescimento da Nubank, que adicionou 4,2 milhões de clientes à sua base no 4º trimestre de 2022 (20,7 milhões no ano), encerrando com um total global de 74,6 milhões de clientes.
Capítulo 02 Oligopólios e juros: a janela que abriu o mercado
Com a existência de um oligopólio bancário no Brasil — poucos bancos fornecendo produtos para uma população de mais de 200 milhões de pessoas —, o mercado de fintechs passou por um intenso aquecimento. Gradativamente, o surgimento e crescimento de empresas menores, somados à consequente quebra desse oligopólio, ampliaram o número de investidores no segmento.
foi o crescimento dos investimentos em fintechs na América Latina em 2021, em um momento de alta liquidez e oligopólio bancário consolidado.
Em 2022, devido à baixa liquidez e ao aumento da taxa de juros internacional, o investimento em fintechs latino-americanas atingiu cerca de US$ 5,5 bilhões — uma queda de 31% em relação ao ano anterior. Em 2023, já foram investidos US$ 47,9 milhões em fintechs. Embora o setor esteja em um período de estagnação, a tendência é que se fortaleça nos próximos anos, principalmente no mercado brasileiro.
"No âmbito latino-americano, em 2023, o Brasil é o país com maior número de fintechs ativas (632) e, no ranking global, aparece em sétimo lugar — atrás de Alemanha (637), Espanha (664) e Reino Unido (1.728)."
Capítulo 03 Fatores de crescimento: estratégia e agilidade
Tendo em vista que a área de serviços financeiros é o alicerce entre credores e devedores, conforme esse alicerce se fortalece — inclusive com a entrada dos desbancarizados no mercado financeiro —, há uma maior fluidez de capital, fomentando o desenvolvimento da economia.
Ainda assim, o grande desafio das fintechs é descobrir onde está a geração de renda por usuário. Elas possuem volumosas carteiras de clientes, mas precisam descobrir como rentabilizá-las — e enfrentar um segundo contratempo: crescer rápido e evitar a cópia das grandes empresas tradicionais, que vêm replicando o que antes era diferencial exclusivo dos bancos digitais.
Capítulo 04 Os cases Nubank e Inter: dois caminhos para rentabilizar
Hoje, diversos bancos tradicionais vêm se apropriando do antigo diferencial competitivo dos bancos digitais — os serviços gratuitos. Para ampliar seus serviços e abarcar uma nova parcela do mercado, empresas como Inter e Nubank arriscam-se na concessão de crédito. Esse é um dos caminhos pelos quais duas das maiores fintechs do mercado brasileiro buscam retomar suas trajetórias de crescimento.
Case Nubank
Eficiência operacional e expansão sustentada
Crescimento YoY de 38% em 2022, consolidando a Nubank como a 5ª maior instituição financeira do Brasil e a 6ª da América Latina em clientes ativos. Custo médio mensal de atendimento por cliente: US$ 0,9.
Case Nubank
Plataforma multiprodutos
A NuInvest alcançou mais de 7 milhões de clientes ativos, tornando a Nubank a maior plataforma digital de investimentos da América Latina. Lançamentos contínuos expandem o portfólio para perfis fora do mercado tradicional.
Case Inter
CAC controlado, ARPAC em alta
CAC estável em R$ 30 mesmo com a adição de novos clientes. ARPAC cresceu para R$ 47 e, em safras maduras, atinge aproximadamente R$ 80 por cliente.
Case Inter
Cross selling no ecossistema
No 4º trimestre de 2022, mais de 66% dos clientes utilizaram três ou mais produtos do banco — sinal claro de que a estratégia de adensar o relacionamento por usuário está funcionando.
"O sucesso da nossa Global Account excedeu muito as nossas expectativas. A próxima fase é implementar nossos recursos de Super App para fornecer o melhor do Inter para os brasileiros que viajam e investem nos EUA, bem como os que residem fora do país."
O que se percebe nesse sistema é um movimento de readequação das estratégias de rentabilidade. Ao identificar uma nova forma de captar usuários e gerar receita, bem como agir com rapidez e eficácia, as fintechs reinventam-se a todo momento — corroborando a importância de melhorar a experiência do consumidor e alcançar aqueles que ainda não utilizam seus serviços.
Capítulo 05 O que vem pela frente
As fintechs carregam consigo uma estrutura naturalmente flexível e adaptável, criando soluções que impulsionam a autonomia do usuário e se moldam às suas necessidades. Mas, para que continuem em um processo contínuo de expansão, devem atentar-se às mudanças sociais e de mercado, reconhecer a atuação da concorrência e agir estrategicamente.
O próximo ciclo do setor não será definido pelo crescimento explosivo da base de clientes — esse jogo já está, em grande medida, jogado. Será definido pela capacidade de rentabilizar a carteira existente, ampliar o ARPAC sem inflar o CAC, e seguir atendendo as parcelas da população que o sistema tradicional ainda não alcança. Quem combinar essas três frentes tende a liderar a próxima década.
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