Já ouvi de alguns CFOs, nas últimas semanas: “Está mais difícil decidir do que executar.” E entendo perfeitamente o motivo.
O segundo semestre ainda nem começou mas os sinais já estão todos na mesa: dólar instável, juros em alta, fluxo de capital volátil e um mercado que oscila entre otimismo e cautela em questão de dias. Tudo isso pressiona a área financeira de um jeito cada vez mais complexo e cada vez menos linear.
O problema não está nos riscos em si. Está na velocidade com que eles mudam.
Por isso, resolvi organizar aqui os quatro pontos que mais têm aparecido nas conversas com CFOs seja na busca por novos desafios, seja no desafio de continuar entregando em ambientes que mudam o tempo todo.
Capítulo 01 1. Câmbio instável. Crédito mais raro.
O real se recuperou um pouco no início do ano, mas o mercado já projeta o dólar de volta a R$6 até dezembro. Isso, somado à fuga de capital estrangeiro da bolsa e à nova guerra comercial EUA-China, torna qualquer planejamento financeiro uma operação de risco.
Se a empresa depende de importados, tem dívida em dólar ou está pensando em captar, o tempo é agora ou já foi. O acesso ao crédito externo ficou mais caro. As janelas de emissão se estreitaram. E o mercado local não tem sido mais amigável: debêntures em queda, IPOs parados, spread subindo.
Capítulo 02 2. O custo de continuar andando
A inflação desacelerou, mas não o suficiente. Ainda está acima da meta, com núcleos que insistem em resistir – serviços, salários, energia. Enquanto isso, a Selic foi a 14,75% e pode subir mais.
Ou seja: está caro crescer, caro manter e caro errar.
Para o CFO, isso bate de dois lados. De um lado, o custo de capital pressiona qualquer plano de investimento. De outro, a instabilidade dos preços dificulta o repasse e comprime a margem. Nem todo setor consegue ajustar preço. E nem todo cliente aceita.
Capítulo 03 3. Baixo ritmo, alto risco
As projeções caíram. O FMI agora fala em 2,8% de crescimento global. No Brasil, a previsão é de 1% com alguns bancos já desenhando cenário de recessão técnica no segundo semestre.
Mas o ponto não é só o número. É o que está por trás dele: consumo fraco, crédito caro, exportações em retração. E, por cima, cadeias de suprimento que seguem expostas a tarifas, conflitos e reconfiguração geopolítica.
O que funcionava até ontem pode travar amanhã e sem muito aviso.
Empresas que seguem operando com base em projeção linear, estoque padrão ou plano de expansão sem contingência estão expostas. Esse é o semestre onde planejamento precisa virar reação rápida.
Capítulo 04 4. Mais carga. Menos margem.
O cenário fiscal continua no limite e o impacto nas empresas está cada vez menos indireto. Corte de benefícios, revisão de regimes, aumento da cobrança automatizada. Tudo ao mesmo tempo.
No Congresso, há avanço sobre a taxação de offshores, o fim do JCP e a regulamentação do Imposto Mínimo Global. Nos tribunais, decisões sobre ICMS, créditos de PIS/COFINS e incentivos estaduais seguem em disputa e com efeito imediato na DRE.
É pressão em cima e incerteza embaixo. Neste semestre, a defesa da margem passa também pela defesa da estrutura tributária.
O segundo semestre talvez não seja o mais difícil. Mas é, com certeza, o menos confiável. Os sinais mudam rápido. As decisões têm impacto imediato. E a margem de erro encurtou.
Nas conversas que temos com conselhos, investidores e executivos, o que mais aparece não é dúvida sobre o cenário – é urgência sobre como responder a ele.
O CFO certo não é o que acerta tudo. É o que sabe quando manter, quando ajustar e quando parar.
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