Quase toda conversa que eu tenho com CEOs, RHs e executivos de alta gestão acaba na mesma pergunta: “Edu, onde o executivo brasileiro vai estar no ano que vem?”
Quanto mais eu olho para os dados do Out of Brazil e para o que vejo na prática, mais eu chego à mesma resposta: o executivo brasileiro está pronto para ocupar mais espaço, inclusive fora do país. O que falta não é competência. É visibilidade.
Mas antes de falar de futuro, vale encarar um ponto incômodo.
Capítulo 01 O que o mundo realmente sabe sobre o executivo brasileiro?
Quando ouvimos 23 headhunters internacionais, espalhados por vários países, 16 disseram não ter familiaridade com o Brasil, com nossos executivos ou com nossas empresas. E isso não se trata de rejeição. O Brasil simplesmente não entra no radar de boa parte de quem decide sobre contratações globais.
Agora, coloca isso ao lado da realidade aqui dentro. O estudo mostra que quase 70% dos executivos brasileiros estão otimistas com a expansão dos seus negócios, mesmo com juros altos e ambiente desafiador. O desemprego está perto da mínima da série recente, e o país segue entre os principais destinos de investimento direto do mundo, com dezenas de bilhões de dólares em projetos de longo prazo.
Ou seja: o mundo quase não fala do Brasil, mas o Brasil continua entregando resultado em um contexto difícil. Esse “desencontro” entre percepção externa e realidade interna é, na prática, um convite. Onde existe lacuna de percepção, existe espaço para reposicionamento.
Capítulo 02 O que o Brasil entrega que o mundo ainda não enxerga
Quando a gente olha para o executivo brasileiro, a imagem é bem diferente do estereótipo.
A pesquisa mostra um líder que se comunica bem, sabe ouvir, tem inteligência emocional alta e forte orientação a resultados. Comunicação e escuta ativa, inteligência emocional, resiliência, agilidade e tomada de decisão sob pressão aparecem como competências centrais.
Na prática, isso significa alguém capaz de manter a performance em um ambiente complexo, segurar o time quando o cenário vira e reorganizar prioridades sem travar a operação. E tudo isso num país em que a “estabilidade” nunca é garantia.
Há também um traço muito brasileiro que a pesquisa descreve bem: a combinação de criatividade com adaptabilidade. Não é a criatividade “solta”, é a habilidade de recombinar conhecimento sob restrição, transformar pressão em hipótese de solução e testar caminhos com recursos limitados. A adaptabilidade vem como essa capacidade de absorver o baque, replanejar rápido e continuar entregando.
Em um mundo que revisa modelos de negócio o tempo todo, discute tecnologia, descarbonização, eficiência e margem, esse tipo de liderança não é acessório. É central.
Capítulo 03 Uma janela rara para internacionalizar essa liderança
Agora, junta esse perfil com o momento do país.
De um lado, o Brasil vive um ciclo de crescimento moderado, inflação controlada e desemprego em baixa, mesmo com juros altos que exigem disciplina de capital. Isso força as empresas a serem mais eficientes, mais bem geridas e mais cirúrgicas no uso de recursos. Quem está comandando essa adaptação? Os executivos.
De outro, estamos sentados sobre ativos que têm tudo a ver com a agenda global. Em 2024, mais de 88% da nossa geração elétrica veio de fontes renováveis. Em 2025, tivemos um mês em que eólica e solar responderam por cerca de um terço da eletricidade do país, o maior patamar já registrado. E seguimos como principal destino de investimento estrangeiro direto na América Latina, com a maior fatia do capital que chega à região.
Quem lidera energia limpa, agro competitivo, serviços financeiros sofisticados, tecnologia, infraestrutura e logística no Brasil já conversa, na prática, com temas globais: produtividade, inovação, ESG, governança, escopo 2, retorno de longo prazo.
E há um terceiro ponto que, para mim, é decisivo: mais de 84% dos executivos brasileiros estão abertos a novas oportunidades, e mais de 40% buscam ativamente uma movimentação de carreira. Ou seja, além de capacidade, existe apetite real para o próximo passo.
Executivo preparado, economia relevante, setores estratégicos e vontade de se mover. Isso não acontece todo ano. É uma janela.
Capítulo 04 Se não é competência, o que falta?
Aqui eu vou direto ao ponto: o que falta é tradução.
O estudo reforça algo que eu vejo diariamente nos processos internacionais: o executivo brasileiro entrega, mas muitas vezes não comunica sua trajetória no “idioma” em que o mundo toma decisões. Falta converter história em métrica, case em série comparável, resultado em algo legível para quem está em outro país.
Um conselho ou investidor estrangeiro quer entender margem, produtividade, ROIC, impacto de longo prazo, indicadores de gente e negócio, governança ancorada em referências conhecidas. Quer ver repetibilidade, consistência e não só um bom momento. O curioso é que, em muitos casos, isso já existe. Só não está organizado como produto de carreira.
Quando a gente não conta essa história direito, o mundo não preenche o vazio com crítica. Ele preenche com… nada. E nada vira neutralidade.
Capítulo 05 Então, onde o executivo brasileiro estará no ano que vem?
Se eu tivesse que resumir, diria que ele vai estar em três frentes: conduzindo empresas que precisam crescer em condições difíceis, liderando setores brasileiros que são, por natureza, globais, e ocupando, cada vez mais, cadeiras fora do país na medida em que se apresentar de forma diferente.
A pergunta já não é “será que o executivo brasileiro consegue competir lá fora?”. A resposta disso aparece todos os dias nas entregas feitas aqui dentro. A verdadeira pergunta é: “como fazemos para o mundo enxergar o que já está acontecendo?”
O brasileiro tem potencial. O mundo tem demanda. O timing é agora. O que separa esses dois lados é, em grande parte, a forma como organizamos e comunicamos a nossa história.
Se você lê isso e sente que já passou da hora de colocar sua carreira nessa rota, eu deixo um convite: revise menos a sua capacidade e mais a forma como você aparece. O mundo não está fechado para o Brasil. Ele só ainda não conhece, em detalhes, o que você já é capaz de fazer.
Acesso antecipado
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