A governança evoluiu. As pautas se expandiram. Os temas ganharam sofisticação. Mas em meio a tantos frameworks, relatórios e discussões técnicas, uma pergunta permanece: as conversas que realmente importam estão acontecendo?
Há temas que ganham palco com facilidade — são mensuráveis, controláveis, familiares. Outros, que exigem desconforto, questionamento e mudança cultural, seguem sendo adiados. Ou tratados de forma simbólica.
É isso que os dados mais recentes começam a mostrar.
Capítulo 01 As pautas que dominam a mesa
Segundo o estudo Board Trends Brasil 2025, os maiores focos hoje são a gestão de riscos, a transformação digital e a sucessão de lideranças. São temas legítimos. São importantes. Mas, na maioria das vezes, são também os temas que o board já aprendeu a tratar. Eles cabem em relatórios, em cronogramas, em modelos de governança consolidados.
Enquanto isso, outras conversas ficam de fora.
Diversidade e inclusão, por exemplo, ainda aparecem como prioridade em apenas 12% dos conselhos. ESG, que vinha ganhando espaço, agora começa a perder tração — e quase 40% dos boards sequer adotam qualquer tipo de avaliação formal de desempenho. Engajamento com stakeholders? Só 17% consideram o tema relevante.
Ou seja: o que é estruturado, técnico, controlável — ganha palco. E o que exige profundidade, desconforto e mudança cultural — ainda fica à margem.
Capítulo 02 O que os dados mostram (e o que escondem)
É curioso perceber como muitos conselheiros dizem estar “mais preparados” para lidar com ESG. O número chega a 74,5%. Mas quando olhamos para as prioridades reais, práticas sustentáveis não lideram a agenda. Há um abismo entre discurso e execução.
A diversidade de gênero, por sua vez, avança a passos tímidos. Mais de um quarto dos conselhos analisados ainda não tem nenhuma mulher. E mesmo onde há mulheres, elas ocupam majoritariamente cargos em conselhos consultivos, com menos poder deliberativo.
Remuneração também entra nessa equação. Em sua maioria, os conselheiros recebem valores fixos, sem vínculo com o desempenho da companhia. Isso protege a imparcialidade, sim — mas também pode afastar o senso de urgência e resultado.
Capítulo 03 Onde está a coragem?
Governança não é sobre o que é confortável. É sobre o que é necessário. E isso inclui fazer perguntas difíceis.
Estamos falando sobre o futuro ou sobre o trimestre? Estamos olhando para a cultura da empresa ou só para a rentabilidade? Estamos incluindo vozes diversas nas decisões ou mantendo o mesmo grupo validando suas próprias ideias?
Conselhos não existem apenas para validar planos. Eles deveriam tensionar decisões, expandir perspectivas e garantir que a empresa não perca o rumo diante das pressões externas e internas.
Chegou a hora de revisar o roteiro. Uma pauta de conselho que ignora temas como diversidade, cultura, impacto social e inovação é uma pauta incompleta. E conselhos que evitam essas conversas acabam, cedo ou tarde, sendo cobrados — pelo mercado, pelos investidores ou pela sociedade.
Mais do que conhecimento técnico, conselhos precisam de repertório humano. Precisam de pluralidade. Precisam de gente disposta a fazer perguntas novas e desconstruir verdades antigas.
Afinal, não é só o que se discute que importa. É também o que se escolhe deixar de fora.
Acesso antecipado
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