Empresas familiares seguem como protagonistas do país. Estão por toda parte — desde grandes grupos do agronegócio até indústrias centenárias, passando por redes de varejo, incorporadoras, prestadoras de serviços e empresas de capital fechado com forte presença regional. Mesmo longe dos holofotes, seguem se reinventando, expandindo e ocupando posições estratégicas no mercado brasileiro.
Hoje, cerca de 90% das empresas no Brasil têm perfil familiar, de acordo com dados do IBGE. Esse modelo responde por aproximadamente 75% dos empregos no setor privado e é responsável por mais de 60% do nosso PIB. A relevância vai além da estatística: ela está no modo como essas empresas operam, no vínculo com as comunidades onde estão inseridas, na relação direta com colaboradores e na construção de negócios que se pensam em gerações, não em trimestres.
Ao analisar o estudo recém-lançado pelo Evermonte Institute, com base em 982 executivos(as) brasileiros de alta gestão, fica claro que as empresas familiares têm muito mais sofisticação do que o estereótipo costuma sugerir. Elas operam com estruturas sólidas, remuneração competitiva e alto nível de exigência — e, ao mesmo tempo, preservam valores que são difíceis de encontrar em outros modelos organizacionais.
A tomada de decisão costuma ser mais rápida. A proximidade entre lideranças e operação é real, e não apenas parte do discurso. A confiança é uma ferramenta de gestão, construída ao longo de anos. O que está em jogo não é apenas a performance de um ciclo, mas a continuidade de uma história — e isso, por si só, já coloca um tipo diferente de responsabilidade sobre os ombros de quem lidera.
Claro que esse modelo também carrega desafios. A pesquisa mostra, por exemplo, que apenas 19,5% dos cargos executivos em empresas familiares são ocupados por mulheres. No que diz respeito ao formato de trabalho, 70,4% dessas organizações ainda operam majoritariamente de forma presencial, o que contrasta com 48,8% nas empresas não familiares. E embora os incentivos de curto prazo estejam presentes, os mecanismos de retenção de longo prazo — como stock options ou bônus vinculados à geração de valor — ainda aparecem em menor escala: só 26,4% das empresas familiares oferecem ILPs (incentivos de longo prazo).
Mas esse retrato também revela algo importante: o modelo familiar está em transição. Em muitas dessas organizações, há movimentos claros de abertura. Algumas já estruturam comitês de sucessão. Outras estão revendo suas práticas de remuneração. E há um número crescente de empresas familiares contratando executivos de mercado com mandato claro de transformação.
O que essas empresas vêm descobrindo é que tradição e modernização não são forças contrárias. Muito pelo contrário: quando bem equilibradas, são a fórmula para atravessar crises, manter coerência e seguir relevantes em contextos imprevisíveis. Elas não precisam abrir mão da essência para se atualizarem. A confiança que sempre guiou suas decisões pode, agora, conviver com estruturas mais robustas. A intuição dos fundadores pode coexistir com análise de dados. O legado pode caminhar lado a lado com inovação.
Aliás, uma das grandes forças das empresas familiares está justamente na flexibilidade. Elas conseguem adaptar modelos, ajustar estratégias, experimentar formatos com mais agilidade. E isso, num mercado cada vez mais volátil, é um ativo raro.
É verdade que esse processo de evolução exige cuidado. Não se trata de simplesmente importar práticas de empresas globais ou replicar modelos de governança como se fossem fórmulas prontas. O desafio está em encontrar um ponto de equilíbrio entre o que precisa mudar e o que deve permanecer. Entre o que é valor histórico — e o que é oportunidade de futuro.
No fim das contas, o que sustenta uma empresa familiar vai muito além do vínculo de sangue. É o senso de continuidade. É a visão de que a reputação construída hoje vai moldar a forma como a empresa será percebida — e valorizada — amanhã. É o desejo genuíno de fazer o negócio durar, prosperar e se manter íntegro, mesmo diante de tantas mudanças.
Num mundo que se move rápido demais, as empresas familiares seguem lembrando a todos que consistência também é estratégia. Que cultura forte também é inovação. E que legado, quando bem gerido, não é peso — é impulso.
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