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São Paulo ainda é o centro da governança no Brasil?

6 de Novembro, 2025 | Artigo

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Rcentemente, participei de um evento do IBGC em São Paulo. Como sempre, foi um encontro rico de ideias, provocações e encontros que me lembram por que seguimos apostando na evolução da governança no país.

Mas teve um ponto que me chamou atenção de forma especial. Em meio aos painéis, percebi que vários discursos e debates giravam em torno de São Paulo como se esse fosse o único eixo decisório possível no Brasil. Foi aí que me veio a pergunta: ainda faz sentido dizer que São Paulo é o centro da governança brasileira?

A resposta mais honesta que encontrei foi: sim — mas não do jeito que costumava ser.

Segundo os dados do estudo Board Trends Brazil, conduzido pelo Evermonte Institute com mais de 130 conselheiros de todo o país, 65,4% deles atuam no Sudeste — e, dentro dessa região, São Paulo lidera com folga. Não é surpresa. A capital paulista concentra o maior número de empresas listadas, sedes de multinacionais e estruturas de governança mais robustas. Em empresas com faturamento superior a R$2 bilhões, por exemplo, 78,3% adotam conselhos de administração formais, majoritariamente com sede em SP.

Conteúdo do artigo
(Board Trends | Evermonte Institute | p.25)

A força de São Paulo nesse contexto é real. Mas o Brasil está mudando — e rápido.

O mesmo estudo aponta que o Sul representa 53,4% da atuação dos conselheiros, com destaque para grupos familiares, cooperativas e empresas do agronegócio. E nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ainda que com participação mais modesta, há sinais de expansão, especialmente nos setores de energia renovável, mineração e agroindústria.

Ou seja: a governança continua concentrada em São Paulo, mas não está mais confinada a ela. A descentralização já começou — ainda tímida, mas inevitável.

Essa transição me lembra que, quando falamos de governança, não estamos falando só de normas e comitês. Estamos falando de território, de cultura empresarial, de diversidade de realidades. Um bom conselho hoje precisa entender o Brasil além do eixo Rio-SP. Precisa compreender que o que faz sentido em uma startup de tecnologia no Itaim pode não servir para uma indústria familiar em Joinville, ou para uma companhia de energia solar em Teresina.

A boa governança, daqui pra frente, será menos sobre onde o conselho se reúne — e mais sobre quais mundos ele é capaz de conectar.

Também vale dizer: os conselhos estão mudando por dentro. Mais de 34% dos conselheiros ingressaram após 2020, com perfis oriundos de áreas como tecnologia, ESG e inovação. É uma renovação que traz um olhar mais fluido, menos geograficamente limitado. Um conselheiro pode viver em Campinas, atuar num board em Recife e participar de reuniões híbridas com uma empresa do Mato Grosso. A tecnologia quebrou o monopólio da localização física.

Mas isso não apaga os desafios.

A diversidade regional ainda esbarra na concentração econômica, na resistência à mudança e na baixa representatividade de vozes fora do eixo tradicional. Em muitos conselhos, não há sequer mecanismos formais de avaliação — 39,8% dos boards ainda operam no modo “confiança e experiência”. Isso, em 2025, deveria nos incomodar mais do que incomoda.

É por isso que a pergunta do título não é só retórica. Ela é um convite.

Se São Paulo ainda é o centro da governança no Brasil, precisamos garantir que esse centro funcione como um ponto de partida — e não de chegada. Um lugar de articulação, não de centralização. Um polo que irradia boas práticas, mas que também sabe escutar, adaptar e acolher a complexidade de um país continental como o nosso.

Voltei do evento do IBGC com a certeza de que temos avançado. Mas também com a convicção de que os próximos saltos não virão da repetição do que já funciona em São Paulo — e sim da curiosidade em ouvir o que está surgindo fora dela.

A governança do futuro será tão forte quanto a nossa capacidade de incluir mais vozes, mais territórios e mais perspectivas à mesa.

Essa mesa tem lugar para todo mundo — desde que a gente queira, de fato, abrir espaço.

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