Ser muito bom no que faz pode atrasar sua carreira
Eu sei que essa ideia pode causar estranhamento. E você pode estar se perguntando agora: por que ser muito bom no que eu faço pode estar atrasando a minha carreira? Não é justamente isso que vai me levar adiante?
E, de fato, na maior parte da vida profissional, ser bom no que você faz é o que te faz avançar. O problema é que essa lógica, que funciona muito bem até certo ponto, nem sempre continua funcionando da mesma maneira nas etapas seguintes.
Em algum momento da trajetória, especialmente em posições de liderança, ser muito bom no que você faz pode começar a te prender mais do que te impulsionar. E eu sei que essa frase contraria tudo o que a gente aprendeu sobre mérito, desempenho e crescimento profissional. Mas basta olhar com um pouco de honestidade para várias carreiras executivas para perceber que isso acontece o tempo todo.
Existem profissionais que se tornam tão competentes, tão confiáveis e tão associados à entrega, que passam a ocupar um lugar difícil de substituir. São pessoas que conhecem profundamente a operação, têm histórico, credibilidade e domínio sobre o que fazem. E justamente por isso vão ficando importantes demais naquele lugar. Importantes a ponto de a empresa ter dificuldade de imaginá-las fora dali. É aí que mora a armadilha. O profissional cresce tanto dentro da função que começa a ficar preso no próprio sucesso. Ele vira indispensável demais na execução e demora a construir musculatura para atuar em outra camada.
Esse é um ponto delicado, porque não tem nada a ver com perder performance, relaxar ou se acomodar. Também não tem a ver com deixar de ser competente. Tem a ver com entender que a natureza da sua contribuição precisa mudar. O que te trouxe até aqui não vai, necessariamente, te levar adiante. Em algum momento, continuar sendo o melhor da execução passa a ser uma limitação.
E isso é difícil de admitir, principalmente para quem construiu a carreira com muito esforço, muita consistência e um senso forte de responsabilidade. Porque soltar a execução não parece, num primeiro momento, um movimento de evolução. Muitas vezes parece descuido. Parece perda de controle. Parece até uma espécie de ingratidão com aquilo que te fez chegar até aqui. Afinal, foi fazendo bem feito que você ganhou espaço. Foi sendo confiável que você se tornou relevante. Foi dominando o que fazia que você construiu sua reputação. Então não é simples aceitar que, daqui para frente, crescer talvez exija justamente abrir mão de parte disso.
E sim, eu sei como isso pode ser difícil. É duro ir abrindo mão, aos poucos, do que você construiu. É duro passar responsabilidades para outras pessoas e aceitar que elas não vão fazer exatamente como você faria. É duro ver decisões acontecendo sem a sua intervenção direta. É duro deixar de ser a primeira pessoa lembrada para resolver tudo. Mas a verdade é que você não vai crescer enquanto isso não começar a acontecer.
Porque crescer, em determinados momentos da carreira, não é continuar entregando mais. Às vezes é exatamente o oposto. É parar de se medir apenas pela sua capacidade de execução e começar a se medir pela sua capacidade de ampliar o nível de atuação ao redor. É sair do centro de tudo. É fazer com que o resultado deixe de depender tanto da sua presença direta e passe a acontecer com mais autonomia, mais maturidade e mais consistência ao seu redor.
Muita gente confunde essa transição com afastamento, como se subir de camada significasse virar um líder distante, abstrato ou desconectado da realidade. Não é isso. Não se trata de abandonar a operação no sentido irresponsável da palavra. Trata-se de não estar emocionalmente e funcionalmente acoplado a ela o tempo todo. Trata-se de conseguir olhar para o negócio com mais altitude. De gastar menos energia sendo essencial em cada detalhe e mais energia construindo capacidade, maturidade e autonomia no time e na estrutura.
Talvez essa seja uma das viradas mais difíceis da carreira executiva, porque ela mexe com identidade. Tem profissionais brilhantes que ainda associam valor à sensação de serem indispensáveis. E isso é compreensível. Ser necessário dá segurança. Ser consultado para tudo dá sensação de relevância. Ser a pessoa que resolve dá reconhecimento imediato. O ponto é que existe uma hora em que essa indispensabilidade deixa de ser sinal de força e passa a ser sinal de dependência do sistema em relação a você.
Crescer de verdade é outra coisa. É quando a sua presença deixa de ser medida pelo volume de coisas que você pessoalmente executa e passa a ser percebida pela qualidade do ambiente que você constrói. Pela capacidade de formar gente boa. Pela confiança que você gera. Pela clareza de direção que oferece. Pela estrutura que deixa de pé. Pela continuidade que consegue garantir. O próximo passo começa quando o seu valor deixa de estar concentrado só naquilo que você entrega pessoalmente.
E talvez a frase mais desconfortável dessa conversa seja esta: se você quer ir para o próximo nível, precisa ser cada vez mais desimportante no que faz hoje. Não irrelevante, claro. Mas menos central. Menos insubstituível. Menos indispensável para que as coisas aconteçam. Nem sempre esse processo é linear, nem fácil. Mas ele é necessário.
E talvez valha a pena se perguntar, com honestidade: o que hoje está sustentando o meu valor profissional? A minha capacidade de resolver tudo? Ou a minha capacidade de construir algo que funcione cada vez melhor sem depender tanto de mim?
Essa resposta diz muito sobre o ponto da carreira em que você está. E, principalmente, sobre o que pode estar faltando para o próximo passo acontecer.
Acesso antecipado
Receba as próximas pesquisas do NIE direto no seu inbox.
Análises trimestrais sobre remuneração, sucessão, estrutura organizacional e tendências executivas — assinadas pelo time e.institute.
Inscreva-se no Institute Hub