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Cadê os incentivos de longo prazo que estavam aqui?

30 de Junho, 2025 | Artigo

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Alguns dias atrás, num café com um executivo do setor financeiro, ele compartilhou comigo uma decisão recente. Tinha recusado uma proposta de CFO numa companhia sólida, com boa reputação no mercado.

“Guto, o pacote era interessante… mas tudo atrelado a longo prazo. Vesting de quatro anos, bônus diferido, cláusulas complexas. Hoje? Prefiro previsibilidade.”

Não era um desabafo. Era racional, ponderado. E, pra ser sincero, não me pegou de surpresa. Tenho escutado cada vez mais histórias assim. Executivos experientes, qualificados, que há alguns anos priorizariam ter skin in the game — e que agora estão pensando diferente.

O jeito de montar pacotes de remuneração executiva vem mudando com força nos últimos anos.

Durante muito tempo, os incentivos de longo prazo foram quase um “selo de senioridade”. Um sinal claro de que o executivo era visto como peça-chave da estratégia, alguém que ia construir valor no tempo — e colher junto com a empresa.

Era comum ver estruturas com stock options, phantom shares, bônus de retenção. Planos com cláusulas de vesting e cliff que funcionavam como âncoras: quanto mais tempo e mais entrega, maior o retorno. Esses pacotes ajudavam a reter e a alinhar interesses. Num ambiente com capital mais barato, mais previsibilidade e ciclos longos de crescimento, esse era o jogo.

Hoje, esse modelo não é mais o padrão.

Segundo o último Report de Remuneração da Evermonte, a presença de stock options caiu de 31,2% para 16,9%. Os bônus de retenção também encolheram — de 26,2% para 19,4%. E quase 60% dos executivos analisados não contam com nenhum tipo de incentivo de longo prazo em seus pacotes atuais.

Mas isso não quer dizer que o futuro saiu da equação. As empresas estão operando em ciclos mais curtos, com menos margem para compromissos distantes. E os executivos também mudaram. Muitos preferem um fixo mais robusto, mais liquidez, mais controle sobre o que recebem e quando. Outros ainda valorizam ter skin in the game — mas querem mais clareza, ciclos mais curtos e modelos mais tangíveis.

O mercado está mais volátil. O custo de capital disparou. As margens ficaram mais apertadas. E, diante desse cenário, muitas empresas precisaram rever suas estratégias de retenção. Apostar em ciclos longos, com pagamentos futuros, passou a ser um risco — e, em alguns casos, um luxo.

Os executivos também se adaptaram. Muitos viveram transformações intensas nos últimos anos. Aprenderam, na prática, que a previsibilidade tem valor. Que liquidez importa. E que o longo prazo precisa vir com mais garantias — ou, pelo menos, mais clareza.


A verdade é que não tem certo ou errado.

Tem contexto. Tem momento de vida, momento de empresa, momento de mercado.

O incentivo de longo prazo precisa voltar a fazer sentido — para os dois lados. Porque, hoje, reter não é mais (só) sobre contrato.

É sobre alinhamento de expectativas. É sobre trajetória. É sobre confiança.

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