e.institute

O Brasil que cabe em um conselho

6 de Novembro, 2025 | Artigo

Ir para o artigo

Não é só o CNPJ, o CEP ou a nacionalidade dos conselheiros. Pra mim, um conselho genuinamente brasileiro é aquele que encara a realidade do país com todas as suas complexidades — desigualdades, urgências, ritmos e oportunidades. Um conselho que não só se adapta, mas responde ao Brasil como ele é. E, felizmente, eles estão começando a aparecer.

O estudo Board Trends Brazil 2025, do Evermonte Institute, confirma o que muitos de nós já percebemos na prática: a governança no Brasil está mudando. A composição dos conselhos está passando por uma renovação silenciosa. Não é ruptura — é sobreposição. Novos perfis estão chegando, sem apagar o que já foi construído.

Mais de um terço dos conselheiros brasileiros entrou no mercado depois de 2020. Isso é relevante. São profissionais que vêm de áreas como tecnologia, ESG, inovação — e trazem repertórios diferentes, novas lentes. Mas essa renovação convive com a força dos perfis mais experientes, que seguem ocupando a maioria dos assentos e são fundamentais na tomada de decisão. A faixa etária predominante ainda está entre 51 e 60 anos — e a solidez dessa trajetória continua sendo um dos pilares da governança nacional.

Ainda assim, o estudo mostra que temos espaço (e urgência) para ampliar o repertório. A maioria dos conselhos ainda é formada por homens — reflexo de um histórico que se repete em muitas estruturas de poder. Isso não diminui em nada o valor das lideranças atuais, mas deixa claro o quanto precisamos criar ambientes onde diferentes experiências se complementam, e não disputam espaço.

O desafio é esse: manter a consistência da experiência, sem abrir mão da diversidade de trajetórias, visões e vivências. Olha só: áreas como RH ainda são pouco representadas nos conselhos. E isso, pra mim, é uma oportunidade clara — precisamos de uma visão mais humana e estratégica sobre gente dentro da governança.

Esse novo cenário exige escuta, flexibilidade e uma atualização constante. Não é simples, mas justamente por isso pode ser o diferencial. As pautas mais sensíveis hoje — risco, transformação digital, inovação, sucessão, liderança — exigem conselhos prontos para decisões complexas, de longo prazo, sob pressão e com múltiplas variáveis em jogo.

E, na prática, o funcionamento dos conselhos também está mudando. O modelo híbrido de reuniões já é dominante. Muitos conselheiros atuam em diferentes regiões do país — e até fora dele — o que expande o alcance das decisões, mas também exige sensibilidade e respeito à diversidade brasileira.

Mas tem alerta no radar: 40% dos conselhos ainda não têm mecanismos formais de avaliação. E a presença feminina, apesar de estar em avanço, ainda é tímida. A maioria dos boards tem uma ou duas mulheres — e mais de um quarto, nenhuma. Além disso, a remuneração na maioria dos casos ainda não está ligada a desempenho. E isso enfraquece o incentivo de longo prazo.

Esses dados não mostram uma falha pontual. Mostram um processo de transformação em curso. A cultura de governança no Brasil ainda está amadurecendo — e isso não depende só de novos nomes. Depende de como os conselhos integram, escutam, aprendem e evoluem.

Para mim, o conselho precisa ser um espaço de construção coletiva. Onde experiência e inovação não se anulam — se fortalecem. Não se trata de abrir mão do que foi conquistado. É sobre ampliar a mesa. Colocar mais vozes não fragiliza a decisão. Fortalece.

O novo board brasileiro está se desenhando com mais pluralidade, mais estratégia e mais consciência institucional. Desafios? Muitos. Mas o caminho está sendo traçado. E quem já está na sala tem um papel fundamental nessa virada.

Compartilhar

Acesso antecipado

Receba as próximas pesquisas do NIE direto no seu inbox.

Análises trimestrais sobre remuneração, sucessão, estrutura organizacional e tendências executivas — assinadas pelo time e.institute.

Inscreva-se no Institute Hub

Continue a leitura

Artigo

RH, olhe para sua própria carreira

Vamos direto ao ponto: o RH está sempre olhando para a carreira dos outros — e quase nunca para a sua própria. Mas e quando o assunto é você? Sua evolução? Seus próximos passos?

Ler conteúdo
Artigo

As vantagens ocultas do modelo familiar

Fala-se muito sobre os riscos de manter uma empresa familiar sem profissionalização. E com razão. A falta de estrutura pode custar caro. Mas tem uma outra parte dessa história que raramente ganha atenção: as forças que o modelo familiar carrega.

Ler conteúdo
Notícia

Substituir pode ser necessário. Desenvolver pode ser mais inteligente.

Em muitos momentos, uma empresa olha para uma cadeira executiva e percebe que algo mudou. A liderança que antes parecia perfeitamente aderente ao negócio começa a gerar dúvidas. O ritmo da companhia mudou, a press...

Ler conteúdo
Fale por WhatsApp