Não é só o CNPJ, o CEP ou a nacionalidade dos conselheiros. Pra mim, um conselho genuinamente brasileiro é aquele que encara a realidade do país com todas as suas complexidades — desigualdades, urgências, ritmos e oportunidades. Um conselho que não só se adapta, mas responde ao Brasil como ele é. E, felizmente, eles estão começando a aparecer.
O estudo Board Trends Brazil 2025, do Evermonte Institute, confirma o que muitos de nós já percebemos na prática: a governança no Brasil está mudando. A composição dos conselhos está passando por uma renovação silenciosa. Não é ruptura — é sobreposição. Novos perfis estão chegando, sem apagar o que já foi construído.
Mais de um terço dos conselheiros brasileiros entrou no mercado depois de 2020. Isso é relevante. São profissionais que vêm de áreas como tecnologia, ESG, inovação — e trazem repertórios diferentes, novas lentes. Mas essa renovação convive com a força dos perfis mais experientes, que seguem ocupando a maioria dos assentos e são fundamentais na tomada de decisão. A faixa etária predominante ainda está entre 51 e 60 anos — e a solidez dessa trajetória continua sendo um dos pilares da governança nacional.
Ainda assim, o estudo mostra que temos espaço (e urgência) para ampliar o repertório. A maioria dos conselhos ainda é formada por homens — reflexo de um histórico que se repete em muitas estruturas de poder. Isso não diminui em nada o valor das lideranças atuais, mas deixa claro o quanto precisamos criar ambientes onde diferentes experiências se complementam, e não disputam espaço.
O desafio é esse: manter a consistência da experiência, sem abrir mão da diversidade de trajetórias, visões e vivências. Olha só: áreas como RH ainda são pouco representadas nos conselhos. E isso, pra mim, é uma oportunidade clara — precisamos de uma visão mais humana e estratégica sobre gente dentro da governança.
Esse novo cenário exige escuta, flexibilidade e uma atualização constante. Não é simples, mas justamente por isso pode ser o diferencial. As pautas mais sensíveis hoje — risco, transformação digital, inovação, sucessão, liderança — exigem conselhos prontos para decisões complexas, de longo prazo, sob pressão e com múltiplas variáveis em jogo.
E, na prática, o funcionamento dos conselhos também está mudando. O modelo híbrido de reuniões já é dominante. Muitos conselheiros atuam em diferentes regiões do país — e até fora dele — o que expande o alcance das decisões, mas também exige sensibilidade e respeito à diversidade brasileira.
Mas tem alerta no radar: 40% dos conselhos ainda não têm mecanismos formais de avaliação. E a presença feminina, apesar de estar em avanço, ainda é tímida. A maioria dos boards tem uma ou duas mulheres — e mais de um quarto, nenhuma. Além disso, a remuneração na maioria dos casos ainda não está ligada a desempenho. E isso enfraquece o incentivo de longo prazo.
Esses dados não mostram uma falha pontual. Mostram um processo de transformação em curso. A cultura de governança no Brasil ainda está amadurecendo — e isso não depende só de novos nomes. Depende de como os conselhos integram, escutam, aprendem e evoluem.
Para mim, o conselho precisa ser um espaço de construção coletiva. Onde experiência e inovação não se anulam — se fortalecem. Não se trata de abrir mão do que foi conquistado. É sobre ampliar a mesa. Colocar mais vozes não fragiliza a decisão. Fortalece.
O novo board brasileiro está se desenhando com mais pluralidade, mais estratégia e mais consciência institucional. Desafios? Muitos. Mas o caminho está sendo traçado. E quem já está na sala tem um papel fundamental nessa virada.
Acesso antecipado
Receba as próximas pesquisas do NIE direto no seu inbox.
Análises trimestrais sobre remuneração, sucessão, estrutura organizacional e tendências executivas — assinadas pelo time e.institute.
Inscreva-se no Institute Hub