Sucessão é um daqueles temas que todo mundo reconhece como importante — mas que, na prática, acaba sendo tratado com certo cuidado, quase sempre à distância. Não porque falta consciência. Os conselhos sabem o peso que esse assunto carrega. Mas porque, ao contrário de outros temas da governança, a sucessão mexe com variáveis mais difíceis de endereçar: relações de longo prazo, expectativas não verbalizadas, memórias, legados.
O estudo Board Trends, produzido pelo Evermonte Institute, mostra isso com clareza. Sucessão e desenvolvimento de liderança estão entre os três principais desafios enfrentados hoje pelos conselhos no Brasil. E, mesmo assim, quase metade das empresas ainda não tem um plano formal de sucessão. O dado não surpreende — ele apenas confirma algo que a gente já percebe nas conversas, nas pautas, nos bastidores. É tratado como urgente no discurso, mas segue sem espaço real na agenda.
É que sucessão não é só sobre o futuro. Ela obriga a lidar com o presente. Com o que ainda não está pronto. Com o que pode mudar. Com o que precisa ser entregue. E isso exige uma disposição que nem sempre cabe na dinâmica de curto prazo das organizações — especialmente quando o conselho é composto por pessoas que, de alguma forma, ajudaram a construir a história que agora precisa ser reescrita.
Em muitos conselhos, a pauta da sucessão entra e sai da agenda sem grandes avanços. Às vezes por falta de consenso. Às vezes por receio de personalizar o debate. Às vezes por pura dificuldade de começar a conversa. E tudo isso é compreensível. Sucessão é, sim, uma conversa difícil. Mas é também uma conversa inevitável. E quanto mais ela é adiada, mais ela se torna urgente — e mais difícil de ser conduzida com tranquilidade.
Nos conselhos que acompanho de perto, vejo que os movimentos mais eficazes em relação à sucessão começam pequenos. Uma conversa fora da reunião formal. Um comitê que começa a ganhar corpo. Um exercício de mapeamento de competências, ainda sem nomes. E, aos poucos, o tema vai ganhando maturidade. Deixa de ser uma sombra no horizonte e passa a ser parte do presente.
O que impede esse avanço, muitas vezes, não é a falta de estrutura. É a falta de espaço. Um espaço seguro, onde o conselho possa discutir o futuro da liderança sem que isso soe como uma crítica ao presente. Onde se possa falar de perfis, de formação, de timing — sem pressa e sem personalização. Isso exige maturidade. E exige, também, que a sucessão seja entendida como uma responsabilidade compartilhada, e não como uma decisão solitária de quem está no comando.
Outro ponto que a pesquisa da Evermonte traz — e que ajuda a entender o cenário — é que cerca de 40% dos conselhos ainda não contam com nenhum mecanismo formal de avaliação. Sem instrumentos claros de diagnóstico, fica mais difícil perceber onde estão as lacunas. E, sem esse diagnóstico, a sucessão tende a virar uma conversa sobre nomes — e não sobre necessidades. Isso limita o debate. E dificulta a construção de planos mais consistentes.
Não existe um modelo ideal. Cada organização vai encontrar sua forma de estruturar esse processo. O que não dá mais é para fingir que o tema pode esperar. Porque a liderança vai mudar. Mais cedo ou mais tarde. E quando esse momento chegar — seja por decisão estratégica, por aposentadoria, por mudança de cenário ou por qualquer outro motivo —, o conselho precisa estar preparado para conduzir a transição com clareza, responsabilidade e respeito à cultura da empresa.
Falar de sucessão é falar de continuidade. É garantir que a organização siga saudável, relevante e bem conduzida, mesmo quando as pessoas mudam. E, nesse sentido, talvez a pergunta mais relevante não seja “quem será o próximo”, mas sim: “como estamos preparando a empresa para continuar bem liderada nos próximos ciclos?”
Essa é a conversa que importa. E que os conselhos — cada um ao seu modo — precisam começar a ter, enquanto ainda há tempo e tranquilidade para fazer isso do jeito certo.
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