Outro dia, relendo o estudo Women at the Top, que lançamos no Evermonte Institute, uma pergunta ficou martelando na minha cabeça: Por que tantas mulheres tão preparadas ainda são minoria nos conselhos?
Segundo o estudo Women at the Top, conselheiras têm, em média, 87% mais certificações do que os homens da mesma amostra. Mais formação. Mais experiência. Mais preparo técnico. E, mesmo assim, ocupam menos cadeiras.
Onde está o desequilíbrio nessa equação?
Capítulo 01 O discurso é de mérito. A prática, nem sempre.
A ideia de que “quem se esforça, chega lá” ainda ressoa com força em muitas organizações. Mas, quando o assunto é o acesso aos conselhos, a história ganha outras camadas.
Em muitos casos, a reputação circula em espaços marcados por familiaridade e trajetórias já reconhecidas. Mulheres, em geral, constroem esse caminho por outras vias — com mais formação, mais certificações, mais entrega.
O preparo está ali. Mas nem sempre é o bastante. Porque, na prática, competência conta — só não conta sozinha.
Capítulo 02 Mais preparo. Menos reconhecimento.
Um dado do estudo ajuda a ilustrar a diferença de percurso: conselheiras têm, em média, 4,88 certificações. Homens, 2,61. Em muitos casos, o nível de exigência sobre o preparo técnico feminino ainda é mais alto — e o reconhecimento, mais lento para chegar.
O dado sobre certificações mostra um padrão mais amplo: o caminho até o conselho, para muitas mulheres, continua mais longo — e menos previsível. A maioria das conselheiras entrevistadas chegou ao board depois dos 40 anos, muitas após décadas de atuação. Essa transição exige tempo, preparo, posicionamento e, principalmente, visibilidade.
O estudo identificou cinco fatores que costumam pesar na nomeação: passagem por cargos de liderança, envolvimento em projetos estratégicos, formação específica em governança, entregas reconhecidas e atuação em fóruns como IBGC e WCD.
Ainda assim, falta algo fundamental: uma estrutura clara para formar e projetar novos nomes. Sem um pipeline bem desenhado, o acesso continua concentrado — e, muitas vezes, limitado a quem já circula nos mesmos ambientes há anos.
Capítulo 03 Quando estar pronto não é o bastante.
Se o critério fosse puramente técnico, o cenário seria outro. O que abre espaço de verdade são as conexões certas, nos círculos certos, com o respaldo certo. E o que sustenta a indicação é a legitimidade percebida. Percebida por quem já está dentro. E quem já está dentro, em sua maioria, ainda se parece muito entre si.
O maior obstáculo, segundo o estudo, é o primeiro conselho. Não por falta de preparo — mas pela dificuldade de acesso. A nomeação inicial ainda depende de validação por quem já ocupa esses espaços. E é justamente aí que muitos perfis continuam passando despercebidos.
Capítulo 04 Chegar não é o fim do caminho.
O estudo mostra alguns avanços. Mas ainda tímidos. Tem empresas que já definiram metas. Outras continuam repetindo os mesmos perfis, com base nas mesmas histórias, nas mesmas relações.
E mesmo quando ocupam um assento, muitas conselheiras ainda precisam lutar para serem ouvidas. Estar no conselho não é o mesmo que influenciar decisões. E isso revela um ponto importante: não basta ocupar o espaço — é preciso ser reconhecido nele. Aí entra uma pergunta que precisa ser feita: O que está sendo reconhecido como mérito?
Porque se preparo, consistência e entrega já estão ali — e mesmo assim os nomes não aparecem — talvez o problema não esteja no esforço. Talvez esteja no jeito como esse esforço é interpretado.
Leia, na íntegra, a pesquisa Women At The Top clicando aqui.
Acesso antecipado
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