2024 está sendo um ano de grande dinamismo no mercado de trabalho, com movimentações significativas de executivos em diversos setores. Entretanto, cabe mencionar que esse cenário tem se intensificado em função de uma série de fatores, que envolvem, sobretudo, os novos modelos de produção utilizados pelas empresas, a conjuntura internacional e geopolítica, incertezas econômicas, questões de controle fiscal e um contexto mercadológico cada vez mais pautado pela agilidade.
Muitos acham que o mercado executivo se movimenta apenas em ciclos econômicos ascendentes – o que é parcialmente correto, pois há a criação de novas cadeiras e estruturas advindas de crescimento. Entretanto, ciclos de maior instabilidade igualmente movimentam o mercado, seja para buscar alternativas de resolução de problemas, novas oportunidades de receitas e redução de custos, ou por questões de sobrevivência do negócio. Os negócios que optam por seguir esse caminho, tipicamente obtêm êxito no movimento de ascensão.
Nesse sentido, a criação de um ambiente propício para mudanças e novas oportunidades fomenta movimentações dos mais distintos níveis, incluindo a troca de companhia, a alteração do setor de atuação e até mesmo a modificação do cargo ocupado pelo profissional. Assim, considerando que a lógica acelerada do mercado exige lideranças ágeis e adaptáveis, apresento os principais motivos para a intensificação da movimentação de executivos neste ano.
Capítulo 01 1. Ciclos de entrega mais ágeis
As empresas estão cada vez mais exigentes em relação ao tempo e à qualidade das entregas de seus executivos. Isso significa, portanto, que aqueles que querem realmente se destacar devem ser capazes de entregar bons resultados no curto prazo, bem como de ajustar-se às mudanças de modo assertivo. Contudo, essa não é uma tarefa individual. Os gestores precisam estruturar suas equipes de tal maneira que as entregas coletivas estejam em consonância aos moldes de uma cultura ágil.
Outro ponto importante é que, com uma economia mais instável, não há tempo para esperar apenas os ganhos de longo prazo. Os resultados precisam estar conectados a um processo constante de crescimento, e isso só irá acontecer se as estratégias certas forem colocadas em prática. A instabilidade, portanto, não pode ser um impeditivo para a agilidade. Deve, por outro lado, servir como combustível para novas ideias – e, sem dúvidas, para uma atuação marcada pelo desenvolvimento contínuo.
Capítulo 02 2. Mandatos mais claros e curtos
A era dos longos mandatos está chegando ao fim. Pelo menos é o que tenho observado em meu cotidiano como headhunter. Mas, claro, esse panorama é fruto de um redesenho organizacional que vem ocorrendo há tempos no mercado executivo. Antes, o que se percebia era um anseio de prolongamento de carreira dentro de uma única organização. Hoje, por outro lado, com a multiplicidade de companhias na cena global, o executivo de longo prazo está dando lugar a visões mais céleres, e as cadeiras de liderança, no geral, estão evidenciando uma maior rotatividade.
Os motivos são diversos, mas transitam entre o empreendedorismo e a grande atratividade presente no mercado. O empreendedorismo, por sua vez, diz respeito àqueles que saem de suas posições por vontade própria, para trilhar seu próprio caminho. No que se refere à atratividade, menciono aqui as startups e scale ups que, em geral, possuem propósitos muito claros, autonomia, modelos de partnership e um crescimento bastante acelerado – o que, de certa forma, acaba fomentando a movimentação de negócios mais tradicionais. Preciso lembrar, no entanto, que existem inúmeras outras justificativas, que variam de acordo com o momento de carreira de cada liderança.
Capítulo 03 3. Dificuldade de empresas de dono em reter suas lideranças
As empresas de dono, caracterizadas por uma estrutura onde o fundador ou família fundadora mantém controle significativo, enfrentam desafios únicos na retenção de suas lideranças. Entre os fatores mais críticos estão os modelos tradicionais de gestão, a incerteza quanto à estratégia de longo prazo e uma governança muitas vezes em estágio inicial.
Historicamente, muitas empresas de dono operam sob um modelo de comando e controle, onde a tomada de decisões é centralizada e as instruções são transmitidas de cima para baixo. Esse estilo de gestão pode ser eficaz em ambientes estáveis e previsíveis, mas tem se mostrado inadequado para os desafios dinâmicos do mundo moderno. O modelo agile, em contrapartida, valoriza a autonomia das equipes, a colaboração e a rápida adaptação às mudanças – e, por isso, tem sido fortemente incentivado como estratégia de retenção.
Ainda, considerando que, neste modelo, muitas decisões não necessariamente são tomadas em acordo com as práticas de mercado ou com as necessidades emergentes do negócio, pode-se suscitar um ambiente de grande instabilidade. Logo, a falta de uma estratégia sólida pode gerar desmotivação e insegurança, resultando na saída dos líderes em busca de empresas cujos objetivos (e demais aspectos relacionados ao futuro) estejam bem delineados.
Em termos de governança, os cenários são extremamente variados. Contudo, muitas vezes, a ausência de estruturas claras de tomada de decisão e de um planejamento robusto pode tornar-se um desafio complexo para líderes que prezam por transparência e confiabilidade. A saída é demasiadamente óbvia, mas requer um esforço significativo: investir esforços no amadurecimento da governança corporativa em todos os níveis da organização. Assim, a retenção, muito provavelmente, será uma feliz consequência.
Capítulo 04 4. Cenário internacional
A instabilidade geopolítica e as crises internacionais geram incertezas no mercado global, mas também podem abrir novas oportunidades para empresas que souberem se aproveitar delas. É hora de pisar no freio ou de acelerar? No âmbito internacional, as decisões se encaminham para um movimento de desaceleração. Contudo, por que executivos brasileiros estão se movimentando ainda mais?
A resposta está, principalmente, na resiliência do mercado brasileiro. O agronegócio do Brasil, por exemplo, se destaca como um dos maiores e mais eficientes do mundo, e hoje se caracteriza como um dos pilares da economia nacional. Além disso, o mercado de energia sustentável também tem crescido significativamente. Hoje, nosso país possui vastos recursos naturais para a geração de energia renovável – como energia solar, eólica e hidrelétrica -, posicionando-se como um importante player no cenário mundial. Logo, para acompanhar as transformações intrínsecas a estes (e outros) setores, a demanda por talentos qualificados já é uma realidade.
Em 2023, tivemos um crescimento ano a ano de mais de 63% na Evermonte Executive Search, bem como a abertura de dois novos escritórios. E esse movimento não é apenas um reflexo direto dos pontos que comentei acima, mas, também, o resultado de um trabalho arrojado, que vem sendo construído com base na inovação contínua, engajamento das lideranças e pesados investimentos em tecnologia.
Cada vez mais, as pessoas estão procurando espaços onde possam deixar o seu legado, espaços que demonstrem abertura para o diálogo e para a mudança. Portanto, os processos de atração e retenção, daqui para frente, serão ainda mais complexos, uma vez que a estabilidade de carreira não está mais atrelada à permanência ad aeternum em uma mesma companhia.
O mundo está mudando. O mercado está mudando. As pessoas estão mudando. Às empresas, cabe questionar: o que estamos fazendo para acompanhar essas transformações?
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