Em uma perspectiva contrária à contratação de executivos em grandes polos econômicos do Brasil, a região Sul tem apresentado significativa dificuldade em atrair e reter profissionais qualificados para suas posições de liderança em nível executivo. Embora a maior parte das empresas localizadas em Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná demonstre resultados positivos em comparação às demais regiões do país, a região Sul carece de maior atratividade — especialmente cidades do interior, que são ainda mais impactadas.
De acordo com uma pesquisa interna da Evermonte Executive Search, novos modelos de trabalho começaram a ter maior aderência em grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Grande parte dos candidatos afirma que os aspectos que mais influenciam suas decisões profissionais estão diretamente atrelados ao tempo de deslocamento e aos custos implicados em uma possível reestruturação de carreira.
Capítulo 01 Os cinco fatores que dificultam a contratação no Sul
Em síntese, podem ser destacados quatro fatores que interferem de maneira expressiva na contratação de executivos de ponta por companhias do Sul do Brasil. A esses, somamos um quinto tópico — contemplando a perspectiva de ampliação de talentos locais como contraponto à complexidade de movimentar lideranças vindas de grandes centros.
Fator 01
Executivos mais caros longe dos grandes centros
À medida que o profissional se distancia dos polos, suas demandas de remuneração aumentam — porque abre mão de benefícios intrínsecos aos centros financeiros e tecnológicos.
Fator 02
Resistência à estrutura de remuneração dos grandes centros
Empresas do Sul têm pacotes competitivos, mas ainda comparam pelo padrão local. Precisam adequar-se ao padrão dos grandes centros se quiserem disputar talento.
Fator 03
Modelos de trabalho preponderantemente presenciais
A região Sul mantém alta exigência de presencialidade. Para executivos vindos do Sudeste — onde híbrido e remoto avançaram —, isso pesa contra a mudança.
Fator 04
Marca empregadora em construção
Boa parte das empresas do Sul ainda não tem programas estruturados de employer branding — o que prejudica a atração em mercados com baixa exposição nacional.
Fator 05
Falta de investimento em lideranças locais
A solução não é só importar executivos. É também desenvolver um pipeline robusto de futuros líderes na própria região — o que muitas empresas ainda subinvestem.
Capítulo 02 Por que executivos ficam mais caros longe dos grandes centros
É preciso esquecer a lógica do menor custo de vida. Esse argumento dificilmente será aceito por executivos de ponta. Ao se distanciarem dos grandes centros, suas demandas em relação à remuneração são proporcionalmente alteradas — uma vez que abrem mão de outros benefícios intrínsecos aos polos financeiros e tecnológicos.
Na maioria dos casos, executivos do Sudeste manifestam considerável receio em afastar-se de suas localidades em função de duas razões principais:
Razão 01
Limitações familiares e pessoais
Mudança implica em rede de apoio, escola dos filhos, vínculos de longa data. Quanto mais sênior o profissional, mais consolidados esses vínculos costumam estar.
Razão 02
Perda de exposição no mercado original
Afastar-se do polo significa sair do radar dos headhunters, eventos e conselhos do mercado de origem — o que pode comprometer ciclos futuros de carreira.
Capítulo 03 Por que a remuneração precisa ser repensada
Não obstante companhias instaladas na região Sul possuam faturamento expressivo e bons pacotes de remuneração, não se pode equipará-las às que já se encontram situadas em grandes centros urbanos. Mesmo que a remuneração fixa seja semelhante, os fatores de atratividade vão muito além de questões financeiras.
"Empresas estabelecidas em locais menos atrativos precisam ter remunerações mais atraentes para não perder lideranças qualificadas. A comparação financeira é necessária para visualizar o mercado com clareza e compreender as implicações reais da contratação de um executivo de ponta."
É preciso ampliar perspectivas regionais e adequar-se às estruturas de remuneração dos grandes centros, contemplando as idiossincrasias locais a partir de uma atuação estratégica voltada ao sucesso organizacional. Também é preciso considerar todos os fatores envolvidos no processo de mobilidade — sobretudo no que se refere às mudanças culturais às quais a nova liderança será submetida.
Capítulo 04 O peso do modelo presencial: dados da região
Estados como Santa Catarina e Paraná são os que possuem maior adoção do modelo de trabalho presencial. Isso ocorre porque grande parte das empresas catarinenses está espalhada ao longo do estado, e não especificamente em grandes centros. O Paraná, por sua vez, possui uma infraestrutura que poucas entidades federativas desenvolveram, com trânsito mais estável — o que reduz a dor do deslocamento diário.
RS · 2023
64,8% presencial
No Rio Grande do Sul, a utilização do modelo presencial é significativamente maior do que a média do Sudeste.
SC · 2023
76,3% presencial
Santa Catarina apresenta o maior índice de presencialidade da região, com mais de três em cada quatro empresas operando integralmente no modelo presencial.
SP · 2023
46,8% presencial
São Paulo, ponto de comparação, opera abaixo de 50% no modelo presencial — diferença de quase 30 pontos em relação a Santa Catarina.
As áreas para as quais se pretende contratar estão correlacionadas ao grau de dificuldade no processo. Profissionais de backoffice e suporte à tomada de decisão são muito mais aderentes a modelos híbridos e remotos. Já posições que precisam de contato direto com o negócio e com a operação, por natureza, exigem presencialidade.
A preponderância do modelo presencial, somada à falta de estratégia clara para atrair talentos no interior, à carência de opções de lazer e à distância dos grandes centros, potencializa as chances de insucesso na atração de executivos.
Capítulo 05 Marca empregadora e lideranças locais: as duas frentes esquecidas
Boa parte das empresas do Sul ainda não possui projetos estruturados de marca empregadora. Estabelecer e implementar estratégias de employer branding é essencial para atrair e reter executivos qualificados — sobretudo em marcas e negócios com atuação regional e pouca exposição nacional ou internacional.
Para além de benefícios coerentes, é preciso saber como despertar a atenção desses profissionais. Marca empregadora não é decoração institucional: é o que determina se o candidato sequer considera a oportunidade.
Outro ponto importante é o investimento em programas de desenvolvimento de lideranças locais. Embora o tema central seja atração de executivos vindos de grandes centros, todos os profissionais — independentemente de onde residam — deveriam ter a oportunidade de aprimorar suas competências de acordo com as demandas das companhias em que atuam.
"Iniciativas de formação e capacitação podem criar um pipeline robusto de futuros líderes na própria região — mitigando a problemática central deste artigo."
Capítulo 06 A boa notícia: o Sul está se mexendo
Desde 2021, as companhias da região Sul têm demonstrado maior abertura à mudança, começando pela exploração dos pontos positivos relacionados à qualidade de vida. Esse é o ativo natural da região — e é também o argumento que melhor compensa a distância dos grandes centros.
A boa notícia é que a maior parte dessas empresas já está ciente do contexto descrito acima e trabalhando em conjunto com acionistas e conselheiros para avançar nas oportunidades. Utilizam seus potenciais singulares para gerar interesse de mobilidade em executivos de grandes centros, ao mesmo tempo em que ampliam investimentos em talentos locais.
O Sul não disputa o talento executivo nos mesmos termos que São Paulo. Mas, com a estratégia certa de remuneração, marca empregadora e desenvolvimento local, pode disputar em termos próprios — e ganhar essa disputa em segmentos onde a qualidade de vida vale tanto quanto a senioridade do cargo.
Acesso antecipado
Receba as próximas pesquisas do NIE direto no seu inbox.
Análises trimestrais sobre remuneração, sucessão, estrutura organizacional e tendências executivas — assinadas pelo time e.institute.
Inscreva-se no Institute Hub