Em linhas gerais, diversas lideranças brasileiras têm despertado interesse em multinacionais europeias. Na área de Recursos Humanos, esse cenário ganha ainda mais expressividade — sobretudo em função de temáticas como negociação salarial e sindical, além de assuntos como dissídio, cujas especificidades não costumam ser exploradas no âmbito internacional.
As múltiplas experiências de executivos brasileiros caracterizam-se como fator de grande influência para o aumento dessa procura. As distintas realidades mercadológicas vivenciadas ao longo da carreira propiciam uma bagagem bastante apreciada por países europeus — onde, de forma majoritária, as formações de líderes ocorrem em uma única escola, normalmente pautada pela projeção interna.
Capítulo 01 Por que o Brasil entrou no radar europeu
Com o envelhecimento da população europeia, restringir-se apenas ao contexto nacional pode, no médio e longo prazo, gerar problemas significativos de gestão. Sabendo disso, muitos RHs já estão se preparando para atender às demandas desse novo mercado e encarar as idiossincrasias que o acompanham.
Na busca de companhias europeias por gestores de Recursos Humanos que possam preencher suas insuficiências, esse é um ótimo período para as lideranças brasileiras. O que parece um movimento isolado é, na verdade, parte de uma reconfiguração mais ampla do mercado europeu — que combina envelhecimento demográfico, pressões inflacionárias inéditas e necessidade de internacionalizar suas estruturas de liderança.
Capítulo 02 Os números que comprovam a virada
De acordo com o estudo Global Hiring Report, publicado pelo Valor Econômico, hoje o Brasil ocupa posição de destaque entre as alternativas de contratação de empresas estrangeiras. O movimento é mensurável e crescente:
Ranking global
4º lugar
O Brasil ocupa o quarto lugar entre as alternativas de contratação de empresas estrangeiras, em um ranking que considera 150 países avaliados.
Crescimento de demanda
+50% em 12 meses
Entre setembro de 2022 e setembro de 2023, houve um aumento de 50% no número de brasileiros empregados por companhias estrangeiras. A perspectiva é que o crescimento se intensifique.
Macroeconômico
IPCA em 4,60%
O Brasil encerrou 2023 com o Índice de Preço ao Consumidor Amplo em 4,60% — invertendo a conjuntura global. A Europa ainda aprende a conviver com hiperinflação que aqui já é conhecida.
Diversos países da União Europeia tiveram alta considerável na Taxa de Inflação. O Brasil, que já vivenciou esse mesmo momento em outros períodos de sua história, terminou 2023 em direção contrária. Agora, os países da Europa precisam aprender a conviver com a hiperinflação — cujas implicações já são extremamente conhecidas no mercado brasileiro.
Capítulo 03 A bagagem brasileira como ativo competitivo
Com a complexificação dos processos de remuneração e benefícios, somada ao aumento da tensão sindical em função da questão inflacionária, executivos brasileiros que possuem skills relacionadas a essas áreas são, muito possivelmente, a maior aposta das organizações da UE.
"Conhecimento, repertório, experiência e domínio do assunto: é isso que as empresas europeias estão buscando. Em temas que para elas são novidade, o RH brasileiro tem décadas de prática consolidada."
Outro aspecto observável é uma progressiva conscientização sobre a importância do recrutamento especializado. Organizações europeias possuem uma realidade singular — e, para encontrar e reter talentos dispostos a gerenciá-la, principalmente na área de Pessoas, estão partindo para um processo massivo de globalização do quadro de lideranças.
A preparação para receber esses executivos costuma se desenrolar em três fases consecutivas, cada uma com sua finalidade específica:
Fase 01
Expatriação
As empresas direcionam esforços a períodos de expatriação para introduzir a nova liderança à cultura organizacional. É o momento de imersão e aprendizado do novo contexto.
Fase 02
Retenção
Os recursos são destinados à adequação contínua ao clima da instituição e à recepção positiva em termos de localidade. Sustentar a permanência é tão crítico quanto trazer.
Fase 03
Aperfeiçoamento contínuo
Algumas empresas se preocupam em manter uma mentalidade multidisciplinar, investindo na diversificação de saberes e no aperfeiçoamento de longo prazo da liderança importada.
Capítulo 04 Duas áreas em destaque: remuneração e relações sindicais
Historicamente, a negociação salarial sempre teve importância na área de Recursos Humanos. Hoje, esse conhecimento pode trazer inúmeros benefícios a nível internacional. Com a alta da inflação, saber como negociar remuneração e benefícios é crucial para a saúde e a continuidade do negócio.
Agir com estratégia é o primeiro passo, e as lideranças de RH sabem disso. Entretanto, é necessário compreender o panorama internacional para posicionar-se com propriedade e atrelar os anseios de ambas as partes com assertividade. A experiência no mercado brasileiro é, sem dúvida, um relevante diferencial competitivo.
As perguntas mais frequentes estão relacionadas ao dissídio salarial — acordo entre empresa e colaboradores para reajuste percentual do salário com base na inflação. Como esse cenário de IPCA elevado é novidade em países europeus, lidar com seus efeitos pode ser tarefa difícil para quem não tem o know-how. Lideranças brasileiras de RH estão suprindo essa lacuna.
À medida que a inflação aumenta, os sindicatos também se potencializam — sobretudo em seu papel representativo da negociação salarial, constituindo uma relação mais estruturada com a área de RH. Executivos que detêm conhecimento sobre relações trabalhistas e sindicais possuem grande potencial para adentrar o mercado europeu, cuja realidade contemporânea demanda profissionais altamente capacitados.
Capítulo 05 Uma oportunidade que vai além do salto individual
Com flexibilidade, adaptabilidade e investimento em programas de onboarding, somados aos impasses advindos da alta da inflação, a tendência é que cargos mais altos sejam cada vez mais ocupados por líderes de outros países. E há uma expectativa razoável de que os executivos brasileiros ocupem cada vez mais o topo da cena global.
Esse movimento é, ao mesmo tempo, oportunidade individual e oportunidade coletiva:
Oportunidade 01
Salto individual de carreira
Para o executivo brasileiro, é a chance de levar competências testadas em um dos mercados mais complexos do mundo para companhias que valorizam exatamente esse repertório.
Oportunidade 02
Salto coletivo de visibilidade
Para o Brasil, é o reconhecimento de uma escola de RH historicamente subestimada — que agora se posiciona como referência em temas que o mundo está aprendendo a enfrentar.
Em mercados onde a inflação era novidade até pouco tempo atrás, a expertise brasileira em remuneração, dissídio e negociação sindical não é apenas um diferencial técnico — é um repertório raro que o mercado europeu, agora, paga para acessar. O que era visto como peso do contexto brasileiro virou competência exportável.
O recado para o RH brasileiro é direto: o mercado global está olhando para cá. Resta saber quantos vão se preparar para responder à altura — e quantos descobrirão tarde demais que estavam, sem perceber, sentados sobre um ativo de carreira que o resto do mundo demorou para reconhecer.
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